28 junho 2020

Sarajane

 

Uma mulher perde os dentes da frente após ser atropelada e pisoteada por
 passageiros de um ônibus e registrar isto me rendeu uma péssima notícia


- Tem uma mulher gritando no telefone que precisa falar com você por causa do Regional, disse-me um dos repórteres do jornal Cruzeiro do Sul, enquanto tapava o orifício do aparelho para que ela não ouvisse. 

Como eu tinha escrito duas páginas sobre a visita do então governador Geraldo Alckmin (PSDB) no dia anterior, quando ele anunciou que repassaria R$ 60 milhões ao Hospital Regional de Sorocaba, que estava em crise, a primeira impressão foi de que seria algo referente a isso. 

Mas não era. 

- Quem está falando?, perguntou do outro lado. 

- Eloy, Eloy de Oliveira. Meu colega aqui me disse que queria falar comigo sobre o Regional? O que é? 

- Eu pedi para falar com o repórter do Hospital Regional. Quero fazer uma reclamação do atendimento. 

- Não sou repórter do hospital. Apenas fiz uma reportagem sobre um repasse de R$ 60 milhões que o governo fará a ele. Mas em que posso ajudá-la? 

- Eles falam que vão fazer repasse, mas não querem nem saber da gente. Eu estou aqui há duas horas já sem atendimento. Perdi cinco dentes em um acidente e até agora não veio o dentista especialista para me atender. 

Ao ouvir a reclamação, percebi que meu colega havia rifado o telefonema do leitor, logo naquele em que eu estava cheio de trabalho, mas não tinha o que fazer. 

- Como é seu nome? Vou falar com o hospital. Mas me conte a história inteira, por favor. 

- Meu nome Sarajane Pereira, disse ela. 



A cabeleireira Sarajane viajava em um ônibus do transporte municipal, que vinha da zona norte ao centro. 

O veículo se envolveu em um acidente inusitado: o motorista parou perto de outro ônibus da mesma empresa, que estava sofrendo um incêndio, e, enquanto oferecia ajuda sem se levantar de onde estava, a fumaça atingiu a parte traseira do segundo ônibus e se espalhou. 

Sarajane tinha sido uma das últimas a embarcar. Como o ônibus estava superlotado, ela ficou no final da escada de acesso. Dali não conseguiu avançar nenhum centímetro. 

Na hora que a fumaça surgiu, os passageiros acharam que havia um incêndio ali também e começaram a se empurrar para sair. Ela até se virou para tentar sair antes, mas não deu tempo. Foi atropelada assim que as portas se abriram. 

As primeiras pessoas a empurraram para o chão. 

Ela bateu com o rosto no asfalto. 

O impacto inicial quebrou os três dentes da frente. 

Depois, como as pessoas não tinham como passar sem pisoteá-la, ela acabou perdendo mais um dente da lateral esquerda e um pedaço de um quinto do lado direito. 

Ao vê-la quando cheguei ao hospital, fiquei com pena dela. Não era uma mulher de má aparência, mas o estrago tinha sido muito grande. Os lábios estavam inchados. Os olhos vermelhos. Havia arranhões por todo lado. 

Quando abriu a boca para me mostrar o espaço dos dentes perdidos, ela começou a chorar de vergonha. 

Eu a acalmei, dizendo que tudo aquilo poderia ser consertado. Que ela não ficasse desesperada. 

- Para tudo há uma solução sempre Sarajane. 

- Como há uma solução? Eu terei de fazer implantes. Não tenho dinheiro para isso. Tudo é muito caro. 

- Eu sei, mas esse ônibus em que estava deve estar no seguro. Eles poderão pagar esse tratamento. Afinal, foi a imprudência do motorista deles que causou tudo isto. 

Minha explicação a deixou um pouco mais tranquila. 

Aos poucos ela foi se acalmando. 

Entre soluções, passou a relatar como se sentira no momento do acidente, o que para mim seria muito bom, pois daria o lado mais humano daquela situação. 



Quando olhou para cima novamente, após o atropelamento e toda a confusão, a dor que sentia na boca era tal que a visão embaçou toda. 

Em seguida, foi ficando escura. 

Pensou que desmaiaria, mas isto não aconteceu. 

Era uma mulher forte e lutadora. Nunca conseguira nada sem muito esforço, sem sofrimento. Acostumara-se. 

Aquela situação era só mais uma, repetia para si. 

Do chão, onde estava estatelada, ela só conseguia ver pedaços de imagens. Nada era completo pelo ângulo que tinha. A visão falhava ao compor o contorno das coisas e das pessoas também pela dor que sentia. 

Perdera muito sangue pelo ferimento na boca. 

Ele molhara toda a parte de cima do vestido verde claro com detalhes de bolas escuras, que era novo e que ela colocara apenas para ir ao centro fazer compras. 

O sangue estava em todo o seu rosto também. 

Percebeu quando pingaram gotas no chão após apoiar-se para se levantar. Ela tirou as mãos do chão, apoiando a cabeça no asfalto de novo e passou as mãos no rosto para sentir como estava o sangramento. Em seguida, olhou e as mãos ficaram tomadas por um vermelho vivo. 

O rosto ainda queimara no asfalto quente do meio-dia. 

O pior já havia passado, ela achava, mas perceber que continuava a sangrar a fez sentir-se desesperada de novo. 

A respiração ficou difícil, os olhos foram se diluindo, os sons ficando cada vez mais distantes. 

O calor do horário piorava a sensação. 

Só melhorou um pouco quando começou a ser resgatada. 

Algumas pessoas que não haviam se machucado tanto quanto ela a ajudaram a se levantar lentamente. 

Um senhor mais velho, gordo, barba e bigode totalmente brancos, cabelos lisos e grossos, as mãos amareladas, com aparência de sujo, segurou do lado esquerdo dela. 

Do outro um rapaz magro, bem jovem, cara de assustado. 

- A senhora devia processar essa turma, disse o mais velho olhando para o rosto ensanguentado. 

- A senhora está com alguém, perguntou uma mulher com idade próxima a dela, que fizera 44 uma semana antes. 

A mulher estava com uma bolsa grande e o celular na mão. Acabara de ligar para contar o que acontecera. Ao vê-la sendo ajudada pelos homens, interessou-se. 

Sarajane não teve tempo de responder. 

O homem mais velho adiantou-se: 

- Tem não, está sozinha. Vi quando entrou. Estava só. 

- Ela precisa de um médico, disse a mulher, sem demonstrar preocupação em se envolver. 

Vendo-a de pé, o rapaz largou o seu braço e seguiu. Não disse nada e nem ela a ele, pois não raciocinava ainda. 

Já o mais velho a segurava pelo braço como se fosse dono dela. Sarajane não gostou disso, mas estava mal demais para reagir. A mulher indicou para ele a levar. 

Foi o que o homem fez. 

Caminharam com dificuldade até a ambulância. 

Enfermeiros a colocaram em uma maca e fizeram o primeiro atendimento imediatamente. 

Assim que ela foi colocada deitada, o homem foi falar com os socorristas que iriam na frente. 

Depois disso, Sarajane não o viu mais. 

Várias pessoas já estavam no local para o socorro. 

Outras para satisfazer a curiosidade. 

Em pouco tempo, todo o trecho da Avenida General Osório, próximo à esquina com a Avenida Brasil, na zona norte de Sorocaba, estava lotado de gente. 

A ambulância seguiu para o Hospital Regional. 



A história que a cabeleireira me relatava era muito boa. 

Esse tipo de situação comove as pessoas e era de fato um drama muito grande o que ela passava. 

Sarajane tinha um salão na zona norte e agora se lamentava porque não poderia trabalhar nos próximos dias. 

Tentei animá-la e fui descobrindo mais da vida dela. 

Casara-se ainda adolescente e engravidara logo depois. O marido foi embora três anos depois. Arranjou outra. 

Largou-a para trás com a filha e uma porção de contas para pagar e ela não tinha emprego na época. 

Fez curso de cabeleireira em troca de trabalhar sem receber em um salão do bairro. Trabalhou duro para ganhar clientes nesse salão. Depois de um ano e meio, conseguiu fazer um empréstimo e montou o salão. A dívida foi paga em mais quase dois anos de trabalho. 

Quando tudo ia bem e o número de clientes aumentava, Sarajane sofreu um assalto no salão. 

Além de levar todo o dinheiro que ela havia acumulado ao longo do tempo, porque invadiram a casa dela nos fundos do salão, os ladrões ainda a espancaram. 

Demorou para que ela voltasse a sentir bonita novamente. As marcas da agressão haviam ficado. Agora elas eram ainda mais tristes, por terem sido reforçadas. 

O rosto queimado no asfalto e a falta de dentes a deixavam sem nenhuma autoestima. 



Sarajane fora a mais atingida no acidente do ônibus. 

Quando a fumaça se transferiu de um ônibus para o outro, as pessoas que estavam no segundo ônibus ficaram desesperadas e foram todas para as portas na tentativa de sair o mais rapidamente possível. 

Ela foi literalmente atropelada. 

Várias pessoas passaram por cima de Sarajane e ninguém tentou levantá-la ou evitar pisar no primeiro momento. 

O problema maior foram as primeiras pessoas. Como elas a empurraram para sair, acabaram fazendo com que caísse de rosto no asfalto. O impacto fez com que ela praticamente desmaiasse e o pisoteio deixou seu corpo enroscado com outros que também caíram. 

Acabou virando uma montanha de gente sobre ela. 

A dor maior foram os três dentes da frente. Eles bateram direto no asfalto e caíram. Depois o quarto dente se quebrou pela pressão dos pés das pessoas. E um último perdeu um pedaço, que ficara pendurado. 

Ralou todo o rosto, os braços e as pernas. 

O vestido novo que usava rasgou na barra por ter sido esticado com as pisadas das pessoas. 

- A senhora vai precisar passar por um dentista buco-maxilo-facial devido aos danos causados, disse o funcionário do Hospital Regional quando ela chegou. 

- Isto significa o que exatamente?, ela perguntou amassando as palavras pela dificuldade de abrir a boca. 

- Que terá de esperar, porque o que temos no hospital não está aqui ainda. Ele só vem no final da tarde. 

- Como assim? Eu vou ficar com essa dor até lá? Eu não aguento? Por que não o chamam?, criticou Sarajane. 

- Vamos medicá-la para que não sinta tanta dor, mas não temos como chamá-lo para vir antes. 

O homem mais velho que a ajudara a levantar apareceu nesse exato momento e começou a brigar com o funcionário do hospital que dava explicações. 

A discussão fez com que o servidor se irritasse e saísse. 

Com isto, Sarajane não recebeu de imediato os cuidados que ele havia dito que seriam dados. 

Sem forças para brigar com o homem e com o funcionário, Sarajane foi se encolhendo de dor na cadeira. 

O homem ainda tentou brigar mais vezes, mas não adiantou. Tentou conversar com ela e, como não tinha respostas, disse que ia comprar algo para comer e saiu. 

Quase uma hora e meia depois, Sarajane foi atendida e recebeu remédio para passar a dor. O ferimento recebeu alguns cuidados e o sangramento foi estancado. 

Em seguida, ela saiu para esperar o especialista. 

Daí ligou para mim e foi quando eu entrei na história do acidente e dos dramas que ela viveu. 



Mas, para minha surpresa, quando voltei ao jornal para redigir os textos, fui chamado à sala do editor-chefe. 

Ele me perguntou sobre a história, como sempre fazia quando tínhamos um bom material nas mãos. 

Eu relatei o que tinha levantado e mostrei o meu entusiasmo com o que conseguira. 

Demonstrando alguma preocupação, ele me perguntou com quem tinha falado para apurar os outros lados. 

Achei estranho. 

- Está acontecendo alguma coisa?, perguntei. 

- Sim, está. A diretoria disse que você ligou para a seguradora do ônibus se passando por outra seguradora para verificar o valor a ser pago. Eles estão atrás de você. 

- Eu não fiz isso. 

- Eu sei que não, mas tinha de perguntar. Preciso dar uma resposta a eles. Me desculpe. Essa situação é incômoda. 

- Obrigado, mas o que faço? 

- Faça a matéria normalmente. 

O que acontecia é que a empresa de ônibus envolvida no acidente tinha como seguradora uma empresa ligada a um dos diretores do jornal e Sarajane havia acionado a empresa para cobrar um amparo. 

Não sei se ela disse que eu tinha sugerido, mas, se disse, não era mentira. Seguradoras são para serem acionadas em caso de acidentes. E ela precisava daquele apoio. 

No dia seguinte a reportagem saiu com todos os lados ouvidos como deveria ser, inclusive a seguradora ligada a um dos diretores, e trazia o relato crítico da cabeleireira, que fora vítima de um erro do motorista da empresa. 

A história sensibilizou muita gente. 

Sarajane conseguiu repor os dentes e retomar o seu trabalho no salão, mas eu fui demitido. 

As razões alegadas não estavam ligadas ao acidente. 

Disseram apenas que o meu trabalho não interessava mais e agradeceram a minha colaboração até ali. 

E a vida continua como continuou. 

Jornalista conta história de gente que faz história.

 

O que é o projeto?

Este texto faz parte do projeto de elaboração de um livro contando os bastidores de reportagens ao longo de quase 40 anos de profissão, que se chamará "Coração Jornalista"